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[26/11/2018] São Paulo; Fernando Coelho

Fernando Coelho

Que eu quero aproveitar a hora e te dizer que te amo. O arvoredo sem sabor vagueia dentro em minhas pernas de locomotivas enferrujadas. A solidão me saqueou. Tive um cão que mordia a minha dor. Ele gostava de fazer isso. Ficava com a minha dor no latido e naqueles longos olhos remexidos de rio sem ter onde desaguar. Eu te amo sem som. Eu não sei. Não reconheço nada nem na noite, nem nos relógios de cera. A vigília da torre de zinabre, não tem gente pra olhar. Eu te amo porque sinto cada coisa dessas, tentando amparar o zunido dos vasos de orquídeas em janelas despencando no lençol da brisa. Onde equilibrar-se ou desequilibrar-me se eu não sei andar, nem caminho, nem navego? Somente grito o nome do rio, certo de que ele não me ouve. Os ouvidos do rio são recortados de lama virgem, verde, azul, pedra do fundo. Eu te amo. Não te esqueço. Conto os botões desta surrada camisa sem pano bom com teu nome gravado no suor. O sapato velho, a esfumaçada lapela de cartão-postal de neve, teu nome gravado de cedro. Eu te amo. Freud poderia me explicar se me conhecesse. Sairia escondido numa peneira de ilusão. Eu te amo. Bocados de pátios vazios me apertam o pescoço sem escrúpulos. Derramo-te em tudo. E tudo me lembra de ti. Eu e tudo, sabendo o que não sabemos, te amamos. Não tenho mais onde buscar poesia. Guardo apenas uma palavra para me salvar: amor.

Poemas do livro Manuscritos Sem Juízo. Livro que compõe a Coleção Poeta Fernando Coelho, à venda no       UOL.com.br/Clube    e no site da Editora Aquariana 

 

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