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[05/12/2017] La Paz; Como EUA interferem nos países latino-americanos por vias diplomáticas

Sputnik News

Foto: © Sputnik/ Vladimir Astapkovich

O presidente da Bolívia, Evo Morales, reconheceu que está considerando a expulsão do país de Peter Brennan, o encarregado de negócios dos Estados Unidos, devido à interferência de Washington nos assuntos internos de seu país.

Sputnik Mundo dialogou em exclusivo com Iván Fernando Mérida, que realizou uma investigação do papel de Brennan nos acontecimentos na Bolívia, Nicarágua e Costa.

 Enquanto nos EUA se multiplicam as acusações de interferência da Rússia na política dos outros países, um livro publicado pelo autor boliviano segue o rastro do funcionário do Departamento de Estado dos EUA e seu histórico de ingerência nos assuntos de várias nações da América Latina.

Desde 2014, Peter Brennan é o diplomata estadunidense de maior grau acreditado na Bolívia. Mérida, advogado internacional com mestrado em Direito Internacional, se encarregou de estudar em profundidade as publicações do WikiLeaks, bem como os e-mails oficiais enviados para Hillary Clinton que havia no seu servidor pessoal.

Segundo indicou Mérida, "havia muitas suspeitas em relação a Brennan, mas não havia nenhuma investigação que o tivesse como alvo", exceto alguns artigos de analistas e referências a suas atividades em outros sítios.

"Tudo se limitava a meras suspeitas e suposições. Brennan conseguia constantemente refutar as alegações de que tinha motivos políticos, chamando-os de ‘exageros infundados'", contou o especialista.

Os frutos do trabalho de Mérida foram publicados no seu livro "Brennan Desmascarado", que inclui dados recolhidos pelo investigador desde o último "impasse" nas relações entre o diplomata e o governo em agosto de 2017, quando Brennan disse à mídia que "espera que a Bolívia não fique na mesma situação que a Venezuela".

A atividade de Brennan não se limita à Bolívia: Mérida encontrou também dados que indiciam sua interferência nos assuntos do governo nicaraguano, especialmente contra Daniel Ortega, do costa-riquenho, onde o diplomata apoiava a então candidata à presidência, Laura Chinchilla. Revela-se que Brennan até conseguia coordenar as atividades estadunidenses em Cuba a partir de Washington.

Nicarágua

Mérida comentou à Sputnik que de todas as informações, "não só classificadas, mas abertas também", se pode resumir que durante a sua estadia em Nicarágua (2005-2007) Brennan conduziu uma política ativa de encontros com empresários e grupos ligados à Aliança Liberal, opositora da Frente Sandinista de Liberação Nacional, atualmente no poder.

Do mesmo modo que o fez na Bolívia, de maneira silenciosa e aplicando "poder suave" (bolsas estudantis e programas de ensino), Brennan conseguiu estabelecer contatos no governo, o que lhe permitiu contribuir para a desestabilização de diversas instituições do Estado.

"Os laços eram tão estreitos que, quando surgiu a necessidade de despedir dois altos funcionários do Ministério da Defesa da Nicarágua, a embaixada dos EUA ficou indignada", contou.

"O relatório dizia que estes dois quadros tinham sido preparados nos EUA e que, graças à embaixada, eles não foram removidos do ministério e que eles entregavam dados importantes que já seria difícil de obter após sua saída", resumiu Mérida.

O investigador também destacou as tentativas de prejudicar a imagem de Daniel Ortega por parte do embaixador estadunidense Paul Trivelli, usando os motivos de um alegado assédio sexual contra sua enteada, Zoilamérica Narváez, que recebia dinheiro dos norte-americanos e viajou para Washington, onde lhe pediram para testemunhar contra seu padrasto.

Costa Rica

Entre 2007 e 2010, Brennan foi vice-chefe da missão estadunidense na Costa Rica. Alguns trechos do livro revelam, sobretudo, suas críticas em relação ao governo de San José, Cuba ou Venezuela.

"Ele também apoiou a [ex-presidente] Laura Chinchilla, porque ela estudou nos EUA, na Universidade George Washington, e se manifestava a favor da política estadunidense", ressaltou Mérida.

Cuba

Da Costa Rica, ele regressou a Washington, onde foi encarregado da coordenação dos assuntos cubanos no Departamento de Estado. Nesse respeito, Mérida suspeita que ele tenha ajudado Alan Gross — um empreiteiro da Agência de Desenvolvimento dos EUA, USAID, que esteve preso em Cuba entre 2009 e 2014 por acusação de espionagem.

Brennan, por sua vez, poderia ter lhe assistido nas tentativas de "desestabilizar" a nação cubana, embora a investigação ulterior tenha sido impedida pela "impossibilidade de discutir a questão" por parte das autoridades do país.

Bolívia

Após esse papel, que Brennan desempenhou em Washington entre 2010 e 2012, ele trabalhou no Paquistão com a tarefa de "recuperar a imagem dos Estados Unidos após a morte de Osama bin Laden em Abottabad".

Lá, Brennan encoraja programas de bolsas de estudo, cria empregos com programas da USAID e aumenta a cooperação. O mesmo sistema de influências ele aplicará na Bolívia após sua chegada em 2014.

Primeiro, ao longo de um ano e meio, Brennan trabalhou silenciosamente. Naquele período, ele se dedicou a promover o setor cultural de sua missão diplomática e depois passou a investigar em profundidade as políticas internas bolivianas.

De acordo com Mérida, os dados recolhidos deixam claro que "ele estava tentando obter informações muito sensíveis sobre personalidades do governo e da oposição".

Entre as figuras mais influentes que ele conheceu estava o jornalista Carlos Valverde, que escreveu sobre o "escândalo Zapata", um suposto filho extramarital do presidente Evo Morales.

"A evidência mais forte da possível interferência e ingerência de Brennan na política boliviana é a reunião com Valverde. Um mês depois da reunião, Valverde publica a respectiva matéria", disse Mérida.

O paralelismo entre o caso de Zoilamérica Narváez na Nicarágua e o caso na Bolívia é inevitável, na opinião do especialista: ambos os escândalos são vantajosos para os EUA e afetam a imagem dos líderes não alinhados com as políticas de Washington.

Recentemente, Evo Morales disse que não hesitaria em expulsar Brennan se este não parasse de intervir em assuntos bolivianos, embora a missão do diplomata termine em breve e já se sabe que ele será substituído por Bruce Williamson, que tem experiência de ter trabalhado no México no início da Guerra contra Drogas.

Em 2008, o governo boliviano expulsou do país o então embaixador dos EUA, Phillip Goldberg, por suas ações de "poder duro" que incitaram à violência na Bolívia e ameaçaram a integridade do Estado. A ação de "poder suave" de Brennan "foi muito mais eficiente, porque acabou danificando a figura de Morales".

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