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[12/10/2009] Meu amigo Otto Brokes Memórias da geração de 68 - I

Por Enio Bucchioni, de Presidente Prudente, São Paulo       

Salvador Allende
De Santiago do Chile, sob fogo dos golpistas de Pinochet, para a Revolução dos Cravos, em Lisboa. A sobrevivência, o exílio e a busca de um novo rumo político.

Chile, dezembro de 1973, Estádio Nacional

Éramos apenas cinco, entre os quais Otto Brokes. Centenas de prisioneiros brasileiros já haviam saído daquela prisão em céu aberto em que se transformara o principal campo de futebol do Chile, com capacidade para 77 mil pessoas. Nos dias e semanas posteriores ao golpe contra Salvador Allende, o estádio ficou repleto de detidos, cerca de mil estrangeiros, todos exilados, das mais variadas nacionalidades.

Os latino-americanos tinham sido expulsos para diversos países europeus, com exceção de Portugal e Espanha, ainda sob as ferozes ditaduras de Salazar e Franco. Nenhum país sul-americano se dispôs a aceitá-los. Nós, os cinco, contínhamos, em nossas fichas individuais, a chancela de “à disposição da Justiça Militar” de Pinochet. O golpe havia assassinado dezenas de milhares de militantes ou simpatizantes de esquerda. Nunca se soube ao certo se 30 mil, 40 mil pessoas ou mais, entre os quais vários amigos, como Túlio Quintiliano e Vânio Mattos.

O momento pior já havia passado. Assim pensávamos Otto e eu. A matança indiscriminada tinha sido logo após os primeiros dias e semanas após o 11 de setembro, o dia do golpe. Também havia saído do estádio a polícia brasileira, enviada pelo governo Médici para interrogar os exilados brasileiros detidos e transmitir know-how de tortura à repressão chilena. Em pouco tempo houve um movimento internacional de solidariedade aos presos políticos. Ponderávamos que não mais nos matariam, pois nossos nomes já faziam parte das listas da Cruz Vermelha e dos mais diversos organismos de direitos humanos do mundo civilizado. Tínhamos dúvidas se ficaríamos detidos, cumprindo pena em prisões normais ou se também seríamos expulsos para Europa, o que de fato acabou acontecendo, às vésperas do Natal.

Otto devia ter uns 32 anos, sete a mais do que eu. Era de baixa estatura, um metro e sessenta e cinco, se tanto. Descendente de família alemã, tinha a pele bem branca, cabelo ruivo e muitas sardas espalhadas ao longo do corpo. De longe poderia ser confundido com um albino. Era médico pediatra, formado na Universidade Federal de Goiás, creio. Em seus momentos de folga, atendia crianças e recém-nascidos da imensa colônia brasileira exilada. As crianças o adoravam, inclusive minha filha mais velha, nascida em Santiago. Era muito carinhoso com seus pacientes, além de ser extremamente bem-humorado. Brincava com elas como se fosse uma delas. Éramos quase vizinhos. Otto,quando no Brasil, foi militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, o PCBR, uma das várias cisões do antigo PCB e participante da luta armada contra a ditadura imposta em 1964.

A bem da verdade, poucas vezes conversei sobre política com ele, já que desde o Brasil sempre achei errado o método guerrilheiro. Eu vinha da antiga Ação Popular (AP), uma organização que, apesar de sua debilidade e confusão teórica, via nas massas o motor da história. No Chile, participei da construção do pequeno grupo de exilados chamado Ponto de Partida, posteriormente inclinado ao trotskismo. Além disso, Otto tinha o perfil de um homem de ação e, como a maioria dos militantes da época, nossa formação teórica e política era quase rudimentar. Ao ser preso no Chile pelo exército de Pinochet, foram encontradas armas e munições em sua casa. Foi arrastado pelos braços e pelos cabelos ao ser levado para uma viatura militar.

Todos nós esperávamos pela resistência organizada contra o golpe de Pinochet, o que nunca veio a acontecer. Os dois maiores partidos de esquerda do Chile, o Partido Socialista e o Partido Comunista tinham, somados, cerca de 600.000 militantes. Num país de apenas 10 milhões de habitantes foram derrotados sem luta. A resistência foi pontual e espontânea, e o massacre perpetrado pelos golpistas, através das suas Forças Armadas foi, como sempre na história, impiedoso e cruel.

Revolução dos Cravos,
25 de abril de 1974
Portugal, 1975

Nosso reencontro deu-se em Lisboa, em 1975. Otto havia sido expulso para a Alemanha, por sua origem, e eu para a França. Apesar de meus bisavós serem italianos, a Itália quase não abrigou nenhum refugiado político vindo do Chile. Alemanha e França viviam um período de relativa calmaria política. Assim sendo, nada mais natural que Portugal fosse o país ideal para retomarmos nossas conversas, pois em 25 de Abril de 1974 tinha caído uma das ditaduras mais antigas do mundo, o salazarismo. Um processo revolucionário abriu-se nesse país, turbinado pela luta das antigas colônias portuguesas na África, pela independência nacional e pela fratura e derrota do exército português a partir de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau.

Fiquei na casa de Otto em Lisboa durante algumas semanas até conseguir trabalho como professor de matemática no Instituto Superior de Engenharia de Lisboa. Tal qual o Chile de Allende, nos deparamos com um país em convulsão social e política. A questão a ser equacionada e resolvida era o destino de Portugal após 50 anos de ditadura. Socialismo? Capitalismo com democracia-burguesa? Outra vez os principais partidos de esquerda eram o PC e o PS, só que este último com predominância quase total dos social-democratas, enquanto no Chile eles formavam uma ala direitista minoritária no interior do Partido. A grande novidade para todos nós era que à testa do novo governo português estava o Movimento das Forças Armadas, o MFA, formado, em sua imensa maioria, por jovens oficiais contrários a dominação lusitana na África.

Fatos desconcertantes e raríssimos aconteceram em Portugal nesta época. Em determinada ocasião o governo se declarou em greve, argumentando que era praticamente impossível governar o país. As páginas mais lidas dos jornais diários eram onde estavam as colunas que noticiavam os inúmeros eventos de protestos e as passeatas que iriam ocorrer naquele dia. O leitor, obviamente, poderia participar daquilo que lhe fosse mais atraente. Otto e eu tomamos decisões distintas. Optei por ficar em Lisboa e participar ativamente do processo em curso, militando num pequeno agrupamento trotskista, recém-formado, o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT).

Otto optou por ir à África e lutar ao lado do MPLA, o Movimento Popular de Libertação de Angola. Conscientemente, éramos internacionalistas. Aspirávamos por um mundo melhor, socialista, livre da exploração e das desigualdades sociais. Dada a distância e a ferocidade da ditadura no Brasil, o que impossibilitava nossa atuação direta, Chile, Portugal e Angola constituíam, digamos, nossos cursos de aprendizado prático e teórico no que se referia à revolução socialista de âmbito mundial. No entanto, com uma diferença básica. Na noite do dia 11 de setembro de 1973, dia do golpe no Chile, ao saber que não haveria resistência alguma, decidi entrar para a IV Internacional. Otto, não. Continuou sendo um internacionalista empírico, um homem apenas de ação, sem se aprofundar no exame das diversas e antagônicas correntes que reivindicavam o Socialismo em escala mundial. A intenção de Otto era ajudar as revoluções, naquilo que lhe era possível.

Os próximos passos, em Angola e Portugal, continuam na próxima edição de ViaPolítica.

Fonte: ViaPolítica/O autor

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